“Vocês poderiam me explicar o que eu posso comentar sem levar mais um processo?”, disse a parlamentar após decisão judicial”
O juiz Gustavo Procópio, da 2ª Vara Cível de João Pessoa, concedeu tutela de urgência determinando a remoção imediata de vídeos publicados pela vereadora Eliza Virgínia de Souza Fernandes que, segundo a decisão, associam a comunidade LGBTQIA+ a práticas criminosas e veiculam discurso de ódio.
A medida também alcança a empresa Facebook Serviços Online do Brasil Ltda., responsável pelas plataformas Instagram e Facebook, onde os conteúdos foram divulgados.
A ação nº 0861385-59.2025.8.15.2001 foi movida pela entidade Iguais – Associação de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Pessoas Transsexuais, que pede reparação por danos morais individuais e coletivos no valor de R$ 140 mil.
De acordo com a petição inicial, a vereadora, durante discurso na Câmara Municipal de João Pessoa, relacionou a Parada do Orgulho LGBTQIA+ à “obscenidade” e à “erotização de crianças”. O pronunciamento foi gravado e divulgado nas redes sociais da parlamentar, ampliando o alcance das declarações.
No entendimento do magistrado, a manifestação ultrapassou os limites da liberdade de expressão e da imunidade parlamentar, transformando-se em discurso de ódio.
“A vereadora não se limitou a debater os critérios para o reconhecimento de um patrimônio cultural; ela usou a tribuna para proferir uma investida discursiva a um grupo minoritário, imputando-lhe condutas criminosas”, afirmou o juiz.
O magistrado destacou ainda que a liberdade de expressão não é um direito absoluto e que o Supremo Tribunal Federal (STF) já firmou entendimento de que manifestações que incitam o ódio ou a discriminação não estão protegidas pela Constituição.
“O discurso, ao associar de forma generalizada e pejorativa a Parada do Orgulho LGBTQIA+ à obscenidade e à sexualização de crianças, veicula grave desinformação e incita ao preconceito”, escreveu o juiz, ressaltando que tal narrativa configura, em tese, LGBTfobia, equiparada pelo STF ao crime de racismo.
A decisão determina que Eliza Virgínia e o Facebook retirem os vídeos em até 24 horas e se abstenham de republicar conteúdos de teor semelhante. Em caso de descumprimento, poderão ser aplicadas multas e outras medidas coercitivas.
Para o magistrado, a permanência do conteúdo nas redes sociais “perpetua e amplifica o dano à honra e à imagem da coletividade representada”, uma vez que a internet potencializa a disseminação de discursos de ódio.
“Cada novo compartilhamento ou visualização renova a agressão e fomenta um ambiente de hostilidade e discriminação contra a população LGBTQIA+”, concluiu.
Fala da vereadora
Após a decisão, a vereadora Eliza Virgínia enviou mensagem em um grupo de WhatsApp comentando o caso. No áudio, ela afirmou:
“Bem, o que eu posso comentar… vocês poderiam me explicar o que eu posso comentar sem levar mais um processo? Porque eu, como parlamentar, em uma tribuna dizendo palavras que não são de excitação, que não são preconceituosas e apenas são opiniões, eu já sou processada. Então realmente, pelo jeito, eles querem nos calar, querem me calar. Existe uma perseguição sistemática a tudo que eu falo, então dessa vez eu não vou falar nada.”


